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O
projeto BX começou a nascer em maio de 1976. O primeiro protótipo
ficou pronto em dezembro do ano seguinte. Seria um carro de dois volumes,
com linhas angulosas, traseira inclinada e motor dianteiro. Para o desenho
da parte posterior do Gol que os alemães descreviam como "cortada
a machado" , porém, a VW não se inspirou nem no Polo
nem no Golf: preferiu basear-se no Scirocco, cupê esportivo baseado
no Golf, que chegou a ser importado na época para fins de avaliação.
Outras diferenças significativas entre o projeto nacional e seus
"primos" alemães estavam na mecânica. Em vez da
posição transversal de motor e câmbio, a VW do Brasil
optou pela consagrada longitudinal. E o que se constituiria em erro, no
lugar da refrigeração líquida usada lá fora
e também no Passat, foi escolhido para o Gol o motor boxer (cilindros
horizontais opostos) arrefecido a ar de 1,3 litro do velho Fusca. A potência
líquida passava de 38 para 42 cv por conta da turbina de arrefecimento,
que não precisava de tanta vazão, pois o motor recebia ar
direto por estar na dianteira.
Em maio de 1980 o Gol chegava ao mercado, nas
versões básica e L, produzido na nova fábrica em
Taubaté. Seu nome, associado a esportes como outros da VW (Golf,
Polo, Derby), lembrava a paixão brasileira pelo futebol. O desenho
era atual e agradável, com frente em cunha, boa área envidraçada,
faróis e lanternas pequenos e simples, pára-choques metálicos
cromados. O interior combinava elementos do Passat a instrumentos retangulares
em uma faixa horizontal, como na Variant II. O espaço no banco
traseiro era um tanto escasso, mas o porta-malas oferecia boa capacidade,
380 litros, pois o estepe ficava junto ao motor além de poder ser
ampliado para 1.200 litros com o rebatimento do banco. Cintos de segurança
dianteiros retráteis de três pontos e um rádio AM
mono eram oferecidos. A transmissão, de quatro marchas (a mesma
do Fusca e Kombi), dispensava a substituição de seu óleo
por toda a vida do carro e o consumo atingia 15,8 km/l a 80 km/h constantes,
segundo a VW. No entanto, apesar dessas qualidades, o carro não
correspondeu às expectativas.
O motor refrigerado a ar, além de destoar
da concepção moderna do Gol, tinha potência insuficiente
para suas pretensões. A VW deve ter acreditado que o carro só
poderia vingar, especialmente no interior do País, com o consagrado
coração do Fusca. Por outro erro de avaliação,
a marca priorizou a economia de combustível e optou pela versão
de 1.285 cm3 com um só carburador, quando o próprio Brasília
vinha com 1.584 cm3 e, desde 1976, dupla carburação. Os
42 cv do Gol "o carro que une razão e emoção",
segundo sua publicidade limitavam bastante seu desempenho em relação
aos relativamente ágeis Chevette 1,6 e Fiat 147 de 1,05 e 1,3 litro:
acelerava de 0 a 100 km/h em cerca de 22 s e atingia perto de 130 km/h.
Só não era pior porque o torque se manifestava logo em baixas
rotações e o carro pesava pouco, apenas 750 kg. A posterior
versão a álcool, com dois carburadores, não mudaria
esse quadro.
A decepção só não
era maior porque o chassi permitia tomar as curvas com notável
agilidade e segurança para a época. A suspensão dianteira
McPherson, com subchassi, a geometria de direção com raio
negativo de rolagem e a traseira com eixo de torção de novo
conceito seguiam os princípios básicos do Passat; os pneus
eram radiais, 155/80 R 13; e os freios utilizam duplo circuito em diagonal,
com discos na dianteira.
As vendas logo apontaram a falha e os engenheiros
da Volkswagen tiveram de agir rápido. Em fevereiro de 1981 chegava
ao mercado o Gol S e LS de 1,6 litro, ainda refrigerado a ar, mas com
dupla carburação, potência líquida de 56 cv
e torque máximo de 11,3 m.kgf. Se o nível de ruído
ainda era elevado, as respostas melhoravam muito e a velocidade máxima
passava a 143 km/h, com aceleração de 0 a 100 km/h em 15,4
s. Como os dois carburadores ocupavam mais espaço, o estepe teve
de ir para o porta-malas, reduzindo-o em boa parte. Mário Ferreira,
dono da concessionária Condor, na capital paulista, percebeu então
que bastava montar o pneu com a face externa para cima para que ele se
encaixasse sobre o carburador direito. A idéia, simples mas genial,
foi logo adotada pela VW.
A não ser por algumas adaptações
no mercado paralelo, o Gol continuava carente do motor refrigerado a água.
Mas a Volkswagen preferiu guardá-lo para a novidade com que responderia
ao Escort XR3: o esportivo Gol GT, lançado em março de 1984.
Com o motor de 1,8 litro a álcool que sairia no mês seguinte
no Santana, mas "envenenado" com o comando de válvulas
mais bravo do Golf GTI alemão, desenvolvia 99 cv de potência,
acelerava de 0 a 100 km/h em 9,7 s e alcançava 180 km/h.
A caracterização esportiva estava
por toda parte: grade na cor da carroceria, faróis de longo alcance,
spoiler sob o pára-choque, rodas de alumínio de 14 polegadas,
pneus 185/60, saída dupla do ruidoso escapamento. Por dentro havia
bancos Recaro com apoios laterais envolventes, console com relógio
digital, instrumentos de grafia vermelha incluindo um reduzido conta-giros,
de difícil leitura, e um incoerente vacuômetro e volante
de quatro raios, o mesmo do Passat TS. A suspensão mais rígida
e os largos pneus davam-lhe ótima estabilidade, mas o câmbio
de quatro marchas era inadequado a um motor tão esportivo, em que
o torque máximo aparecia em regime elevado. O de cinco marchas
veio logo depois. Se o esportivo respondia pela imagem de prestígio
da linha Gol, o passo mais importante rumo a seu sucesso foi o motor 1,6
arrefecido a água aplicado às versões S, LS e Saveiro
LS para 1985. Desempenho, consumo, nível de ruído, tudo
progredia de forma substancial nesse verdadeiro gol. A frente era unificada
com o Voyage mas nada é perfeito e o estepe teve de voltar ao porta-malas.
Começaram então as comparações
dos diferentes motores. Era patente que o 1,6 "a água"
era superior, mas havia quem apreciasse o "a ar", inclusive
elogiando sua aceleração tudo não passava de sensação,
como o cronômetro podia comprovar. Mas em agilidade e estabilidade
a versão de motor boxer era nitidamente superior, dada a distribuição
de peso entre os eixos mais favorável, pelo motor mais leve (98
kg contra 124,5 kg) e centro de gravidade mais baixo.
A autonomia da VW brasileira havia chegado ao
motor 1,8, produzido aqui fora das especificações alemãs:
as bielas eram curtas, as mesmas do 1,6, o que trazia uma relação
r/l desfavorável e causava vibrações e aspereza.
Em agosto de 1985, porém, tanto o 1,6 quanto o 1,8 eram padronizados
aos alemães, surgindo a família AP, com o mesmo bloco e
cabeçote para ambos. O 1,6 tinha curso dos pistões bem menor
que o diâmetro (81 x 77,4 mm, contra 78,5 x 80 mm de antes) e também
ganhava bielas mais longas, que lhe renderam o apelido de "bielão"
e um comportamento muito suave é ainda hoje apreciado por preparadores
pelo ótimo potencial de rendimento e durabilidade, chegando a 7.000
rpm sem esforço aparente. A potência chegava a 90 cv, a álcool,
e a 80 cv a gasolina. O 1,8 "manso" passava a 96 cv (a álcool)
mas o "bravo", do GT, permanecia em 99 cv provavelmente só
no papel, para manter-se em faixa de menor incidência de imposto.
Para 1987 era efetuada sua primeira reestilização:
frente mais baixa, pára-choques plásticos envolventes, amplas
lanternas traseiras. As versões eram agora C (opção
despojada que nunca existiu, servindo apenas para burlar o congelamento
de preços do Plano Cruzado), CL, GL, GLS (Voyage apenas) e GTS
(só no Gol), desaparecendo o BX. Nesse ano o Gol assumia a liderança
do mercado, nunca mais perdida. O esportivo trazia faróis de neblina
integrados ao pára-choque, faróis principais maiores como
os do Voyage, largas molduras laterais, novas rodas, aerofólio
traseiro e o famoso volante "quatro bolas" (botões de
acionamento da buzina).
A reformulação do painel, porém,
ficou para a linha 1988: foram adotados dois modelos, o mais refinado
(para Voyage GL/GLS, Gol GTS e Parati GL) com teclas junto ao volante
e instrumentos iguais ao do Santana. Havia enfim um amplo conta-giros
e mudavam os retrovisores.
No Salão do Automóvel 1988 a VW
apresentava uma versão do Gol que faria história: o GTi,
primeiro carro nacional com injeção eletrônica. Instalada
no motor 2,0 que o Santana havia recebido em maio, a injeção
Bosch LE-Jetronic com ignição mapeada EZ-K permitia respostas
suaves, eliminava o afogador e resultava em generosos 112 cv, com torque
máximo de 17,5 m.kgf isso utilizando gasolina, pois seria demorado
desenvolver uma injeção para funcionar com álcool
e havia obviamente uma corrida contra o tempo pela primazia em utilizar
o sistema.
O GTi, caracterizado pela cor azul Mônaco
e os pára-choques e molduras laterais em prata, lanternas traseiras
fumê e novo aerofólio, esbanjava desempenho: máxima
de 185 km/h e 0 a 100 em 8,8 s. Dirigi-lo era uma sensação
inteiramente nova, com uma resposta ao acelerador que impressionava a
todos. Trazia ainda freios dianteiros a disco ventilado. Mas não
foi um caminho fácil: durante algum tempo a marca enfrentou problemas
eletrônicos que geravam falhas típicas de um carburador sujo
num carro sem carburador. Um ano depois, em outro Salão do Automóvel,
saía a linha 1991 do Gol com nova reestilização frontal.
Em março daquele ano surgia a primeira
resposta ao Fiat Uno Mille: o Gol 1000, com acabamento simplificado e
motor AE de 50 cv, que surpreendia pelo funcionamento suave. Em 1993 voltava
a oferta do AP 1,6, que antes vinha com Renault/Ford CHT rebatizado de
AE 1600, e os pára-choques passavam a vir em cinza.
Quatorze anos depois do lançamento do primeiro
Gol, o cenário era outro: havia o Uno Mille, o Escort Hobby 1000
e a sensação de 1994, o Corsa. A Volkswagen tinha de responder
com um novo carro pequeno e, mais uma vez, insistiu em projetá-lo
no Brasil: o projeto AB9 resultou em setembro de 1994 no Gol de segunda
geração. Do antigo modelo restavam apenas a plataforma básica,
ampliada em 11 cm na distância entre eixos, e o conjunto mecânico.
As linhas, arredondadas e agradáveis, revelavam bom projeto no
perfil do capô, que escondia a posição longitudinal
do motor. O coeficiente aerodinâmico deficiente do anterior (cerca
de 0,45) caía para 0,34, o vão de acesso ao porta-malas
era maior e o estepe vinha na horizontal, liberando espaço mas
permanecia o estranho roteiro do escapamento, por baixo do eixo traseiro.
Embora todo novo por dentro e mais espaçoso
no banco traseiro, ainda faltava a opção de cinco portas.
Os motores AE 1,0 (50 cv), AP 1,6 (75 cv) e 1,8 (90 cv, todos a gasolina)
utilizavam injeção monoponto digital e sonda lambda. E não
havia mais o GTS: apenas o GTI, com belos faróis de duplo refletor
e muitos elementos na cor da carroceria.
A linha 1996 marcava ainda a chegada do primeiro
VW brasileiro de 16 válvulas, o Gol GTI 16V. O motor 2,0 de 145
cv, importado da Alemanha, trazia bielas mais longas que no 2,0 nacional,
para maior suavidade, e permitia acelerar de 0 a 100 km/h em 8,7 s. Para
alojar o motor mais alto o capô possuía uma "bolha".
As rodas de 15 polegadas recebiam pneus 195/50, primazia no Brasil, e
o interior podia vir revestido em couro preto ou na chamativa combinação
de preto e vermelho, incluindo bancos e volante. Na tampa do porta-malas
podia ser montado um subwoofer para reforçar os sons graves.
Meses depois surgia o Gol TSi, de apelo esportivo
e motor 1,8, passando ao 2,0 no ano seguinte. O modelo "quadrado"
chegou a ter injeção na versão 1000i, mas logo desapareceu.
Com o encerramento da Autolatina, era preciso substituir o motor Ford
e a solução foi desenvolver o AT-1000, de concepção
moderna, que chegou no modelo 1997 com oito válvulas e 54,4 cv.
A VW de início divulgou 62 cv, sua potência bruta, a fim
de parecer superior aos 61 cv líquidos do Palio...
As novas normas de emissões levavam à
adoção de injeção multiponto (Mi) Magnetti
Marelli nos motores 1,6 e 1,8, que passavam a 89 e 98 cv, na ordem. Na
mesma época o motor 1,0 passava a ser oferecido com 16 válvulas
e 69,7 cv, passo importante na corrida pelo 1.000 mais potente do mercado.
Gol e Parati ganhavam também as opções de bolsas
infláveis e de cinco portas há tempos reivindicada, mas
que demorou, ao que se conta, pela correção de problemas
estruturais da carroceria.
Mas Gol e Parati não demorariam a ser reestilizados,
em abril seguinte, no que a VW chamou de Geração III (na
verdade não era uma nova geração). Frente, traseira
e painel modificados e novos conjuntos de opcionais traziam nova força
aos modelos.
Desde então, o Gol recebeu dois novos motores: o pioneiro 1,0 16V
Turbo, capaz de 112 cv e um verdadeiro ovo de Colombo, por aproveitar
o benefício fiscal aos motores até 1.000 cm3; e um novo
1,0 16V de 76 cv na linha 2002. O GTI foi descontinuado mas o Gol permanece
firme como o mais vendido há 16 anos.
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